Entenda como as quadrilhas juninas são avaliadas nos festivais e competições do Ceará

Nos meses de junho e julho, os festivais e campeonatos de quadrilhas movimentam os festejos de São João no Ceará. No estado, uma diversidade de grupos juninos se prepara para disputar o primeiro lugar nas competições. As pontuações são atribuídas a um conjunto de critérios técnicos, como evolução, coreografia e figurino.

A vitória nas competições pode render premiações em dinheiro e classificação para disputas a nível regional e nacional. Outro resultado é enriquecer o histórico do grupo com os títulos conquistados.

Além da avaliação do grupo todo, há critérios específicos para o marcador da quadrilha, o casal de noivos e a rainha ou princesa. O g1 detalha o que os avaliadores observam nas quadrilhas para atribuir as notas de cada quesito.

Quesito: Quadrilha

Temática A cada ano, os grupos costumam trazer um tema diferente para a apresentação. O tema pode servir de base para todos os elementos apresentados, como figurino, adereços e repertório.
Casamento A apresentação de uma história de casamento é obrigatória, representando o momento teatral mais importante.
Coreografia O subquesito avalia a linguagem da dança, com coreografias baseadas em um grupo que contém pares de dançarinos.
Evolução A sequência da apresentação é avaliada, pois o grupo precisa executar os diferentes momentos com um bom andamento, sem quebras nas transições entre a dança, o teatro e outras performances.
Harmonia O avaliador confere se o grupo está coeso na apresentação e se todas as linguagens artísticas contribuem para contar a história proposta.
Animação Também é observada a expressividade dos brincantes em aspectos como a interação, o canto e a alegria.
Figurino Neste subquesito, os trajes do grupo são avaliados. Há quadrilhas que também fazem troca de figurino durante a apresentação.
Repertório A música é outra linguagem importante na apresentação, com repertório que também pode ser autoral para contribuir com o tema proposto.

 

Casamento obrigatório

No Ceará, as quadrilhas juninas têm 35 minutos de apresentação, com tolerância de um minuto a mais. Elas podem trazer temas variados, mas devem sempre envolver uma festa de casamento.

A importância do casamento nas quadrilhas é uma característica forte da cultura junina do estado, comenta Fabrício Alencar, historiador e membro do Conselho de Avaliadores da Federação de Quadrilhas Juninas do Ceará (Fequajuce).

Mesmo nos festivais que não são organizados pela federação, as planilhas seguem uma base comum dos elementos avaliados. Há mudanças pontuais em alguns dos subquesitos, mas a lógica de avaliação é semelhante nas diversas competições.

Os quesitos abaixo avaliam destaques específicos e obrigatórios dentro dos grupos cearenses.

Quesito: Noivos

Desenvoltura Como são duas pessoas no papel de um casal apaixonado, os avaliadores observam o entrosamento e os elementos que evidenciam a química do casal na apresentação.
Interpretação As falas, a dança e toda a forma de se portar do começo ao fim, não apenas na encenação do casamento, contam para este subquesito.
Animação Os noivos recebem pontuação específica para a animação.
Figurino Os trajes dos noivos também são avaliados separadamente.
Jocosidade Este conceito estimula a manutenção dos trejeitos e da espontaneidade que trazem o aspecto cômico para as quadrilhas juninas.
Integração O casal de noivos tem momentos exclusivos de destaque, mas deve preservar momentos em que participa de coreografias e dinâmicas com o grupo.

 

Outro aspecto importante para as quadrilhas do Ceará é o humor. O conceito de jocosidade busca preservar a leveza do brincar São João, evitando que as apresentações se preocupem apenas com os aspectos técnicos, explica Fabrício Alencar.

“No final dos anos 90 e começo dos anos 2000, as quadrilhas sofreram uma evolução muito grande. E elas estavam perdendo determinados trejeitos e atitudes que faziam a quadrilha ser, acima de tudo, divertida e engraçada”, contextualiza o historiador.

Desta forma, o critério da jocosidade chega para resgatar as brincadeiras e até interações que o casal de noivos pode desenvolver com a plateia.

“Tem todo um jogo cênico que mostra o brejeirismo que a quadrilha junina tem aqui no Brasil”, acrescenta.

Quesito: Marcador

Liderança A figura que comanda o andamento da coreografia e dita os passos é avaliada pela capacidade de liderar o grupo.
Desenvoltura O marcador também é avaliado pela forma como se apresenta em quadra.
Animação À frente do grupo, o marcador é quem também estimula o entusiasmo entre os brincantes, sendo avaliado pela animação.
Figurino Os trajes do marcador também são avaliados para pontuação.
Integração Também é necessário que ele tenha momentos de execução em harmonia com o grupo.

 

Conforme Fabrício Alencar, a figura do marcador é comum nas quadrilhas juninas de todo o Brasil. No imaginário popular, o marcador é aquele que grita o “anarriê” e o “anavantú”.

Não necessariamente esta função é exercida por um homem, sendo a pessoa que controla o desenvolvimento da coreografia e o andamento da apresentação.

Quesito: Rainha ou Princesa

Desenvoltura A rainha ou princesa costuma ter momentos de destaque para se apresentar e dançar, podendo representar personagens específicos dentro da narrativa. Ela é avaliada pela coreografia e pela forma como se apresenta em quadra.
Animação A rainha ou princesa também é uma posição de destaque que precisa demonstrar entusiasmo ao longo da apresentação.
Figurino O traje da rainha ou princesa também é avaliado separadamente.
Jocosidade A brejeirice e a espontaneidade também são aspectos esperados da rainha ou princesa, com interpretações que dependem do papel que ela representa na temática.
Integração Mesmo tendo momentos de destaque, a rainha ou princesa precisa se apresentar em harmonia com o grupo.

 

Este quesito traz duas nomenclaturas por um motivo: as quadrilhas adultas têm rainhas, enquanto as infantis têm princesas.

No Ceará, esta posição de destaque é levada a sério, talvez até mais do que em outros estados, conforme Fabrício Alencar. A rainha representa a moça mais bonita do arraial e tem sido bastante valorizada nos grupos juninos do estado.

Ela se destaca com uma proposta diferente de coreografia, podendo expressar mais sensualidade ou brincar com o personagem que representa. Pode também contar com o auxílio de elementos cenográficos, como fumaças e efeitos de iluminação.

Nas quadrilhas cearenses, a rainha geralmente executa uma grande sequência de giros durante o seu momento de destaque. Apesar de contribuir para a desenvoltura, o giro não é um requisito para a pontuação.

“As nossas rainhas meio que padronizaram essa questão do giro, mas não é uma obrigatoriedade. É até um ponto interessante: uma rainha em determinado momento resolveu fazer esses giros, as outras acharam bonito, e isso foi incorporado para embelezar a apresentação delas”, explica Fabrício.

Os passos tradicionais

A planilha de avaliação da Fequajuce traz uma lista de 46 passos tradicionais das quadrilhas juninas. Alguns exemplos são o serrote, o trancelim, o anarriê e o passeio de namorados. Com a lista, os avaliadores acompanham e marcam quais foram apresentados em quadra.

Nas competições, a quadrilha precisa executar pelo menos 12 passos da lista. Caso o grupo não atinja a quantidade mínima, ele perde um ponto, conforme explica Fabrício Alencar.

Listas com passos tradicionais também aparecem em planilhas de alguns festivais organizados sem vinculação com a federação.

Como funciona a avaliação

O processo de avaliação das escolas de samba, que competem desde a década de 1930, é conhecido pelo público que acompanha de perto as transmissões e apurações dos desfiles carnavalescos.

O circuito competitivo no São João é mais recente, iniciado há quatro ou cinco décadas. Por isso, a tarefa de analisar critérios técnicos na manifestação da cultura popular se inspira em outras festas, como o carnaval e a disputa dos bois Garantido e Caprichoso, no Pará.

Na maioria dos festivais cearenses, a mesa de avaliação conta com quatro avaliadores que atribuem notas e um presidente que cuida de aspectos burocráticos, como controle do tempo e alimentação do sistema de apuração.

Em competições que garantem vagas em disputas regionais ou nacionais, a mesa pode ter até dez avaliadores. As menores notas por subquesito são eliminadas, valendo o registro das maiores notas.

No carnaval, cada avaliador analisa as escolas de samba em apenas um quesito. Nas quadrilhas juninas, é diferente: cada avaliador precisa dar nota para todos os quesitos da planilha. Daí vem o desafio para que ele tenha bastante compreensão sobre as diversas linguagens artísticas.

Ao dar notas de 8 a 10 para cada item, o avaliador precisa também escrever justificativas quando tira décimos da quadrilha. Por esse motivo, ele precisa conhecer bem os critérios e estar atualizado sobre as tendências do mundo junino.

O historiador Fabrício Alencar coordena as ações formativas para avaliadores na Fequajuce. Ele explica os requisitos que a federação estipula para quem quer participar dos cursos:

  • Ter 18 anos ou mais
  • Ter concluído o Ensino Médio
  • Ter disponibilidade ao ser convocado para festivais e competições
  • Possuir alguma ligação com a cultura junina, para que conheça conceitos básicos da quadrilha junina
  • Estar afastado de um grupo junino por pelo menos quatro anos (para ex-brincantes)

Além disso, a federação estimula que os avaliadores enriqueçam o repertório cultural com vivências e cursos livres em diversas temáticas sobre manifestações folclóricas, música, dança e teatro.

Mudanças na formação

Os dois anos de pausa nos eventos por causa da pandemia trouxeram momentos de angústia aos quadrilheiros. No entanto, foi também uma oportunidade de repensar a formação dos avaliadores das competições.

Para Fabrício Alencar, que esteve à frente do processo, os últimos anos trouxeram mudanças na formação, pois era necessário acompanhar o que os grupos passaram a trazer às quadras.

“Havia uma defasagem de duas décadas nos critérios. Os nossos avaliadores estavam ainda muito presos aos aspectos tradicionais da festa enquanto os grupos já estavam muito além. Às vezes, era muito complexo avaliar os grupos”, explica.

O curso, que anteriormente acontecia em dois dias presenciais em Fortaleza, abriu espaço para uma formação a distância. As pessoas do interior tiveram maior participação.

Durante a pandemia, foram 17 encontros virtuais com debates aprofundados com acadêmicos e pessoas que trabalham os aspectos práticos do São João, como costureiros, músicos e representantes das quadrilhas.

O período permitiu também a abordagem de temas que não faziam parte da formação, como relações de gênero, gordofobia e racismo no mundo junino.

“Não era só importante que o avaliador soubesse o conteúdo da planilha. Isso é o feijão com arroz, é o básico. Mas era importante que ele tivesse discussões além disso porque quadrilha também é movimento social, é política. Então a gente precisa ampliar a perspectiva desse avaliador e formá-lo não apenas como conteudista, mas também como pensador”, detalha Fabrício.

Atualmente, a formação inclui os 17 encontros virtuais sobre temas diversos e dois dias de encontros presenciais para laboratórios práticos, onde os candidatos podem inclusive observar e executar os passos tradicionais das quadrilhas juninas. Os debates contemplam, ainda, os aspectos éticos que os avaliadores devem observar para exercer a atividade.

Em 2023, houve também encontros para discutir as mudanças no regulamento aprovado pela Fequajuce, atualizando os conceitos dos quesitos e subquesitos de avaliação.

Fonte: G1 Ceará

Fonte: G1 Ceará

4 Comentários
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