EXCLUSIVO | Estudante e ex-alunos denunciam em redes sociais supostas práticas de crimes de racismo e homofobia por núcleo gestor de escola estadual em Sobral, diretora nega acusações

O relato de um ex-aluno afirma ainda, que um estudante foi obrigado a apagar post das redes sociais e fazer retratação, após se recusar a “vestir a camisa” do candidato da direção da escola durante as eleições de 2018. Já a mãe de um aluno também desabafa sobre o caso e relata que o filho sofreu discriminação no primeiro dia de aula

Colaboração de Jonas Deison e Manoelzinho Canafístula

A mãe de um estudante de 16 anos concedeu entrevista com exclusividade para o Sobral Online sobre a discriminação que o filho sofreu no primeiro dia de aula e ex-alunos da Escola Estadual de Educação Profissional Lysia Pimentel Gomes Sampaio Sales em Sobral na região Noroeste do Ceará publicaram no Instagram, diversas denúncias de supostos crimes praticados pela diretora da instituição e outras profissionais do núcleo gestor da instituição. O Sobral Online ouviu com exclusividade um ex-aluno que narrou com detalhes como agiam as professoras que dirigem a escola, ele reconhece os méritos alcançados pelos resultados da EEEP, porém alguns alunos pagam um preço muito alto e que talvez não sejam capazes de suportar a carga de pressão e constrangimentos sofridos durante o período em que estudaram na escola.
 
Desabafos de ex-alunos – Os seis post’s foram publicados na última sexta-feira (3), com denúncias graves que apontam especialmente para a diretora da escola, a reponsabilidade pela prática de supostos crimes em um deles, ela é acusada de ter assediado uma estudante para que ela cortasse o cabelo por ser crespo e grande, “se as pessoas estão indignadas com a A** E***** ter chamado um menino na coordenação e ter dito que o cabelo dele é de “Bom Bril”, IMAGINA se eles soubessem que ela já tentou PAGAR uma menina para cortar o cabelo dela pq era grande e CRESPO”, diz o post anônimo.

Uma outra publicação, o autor se revela como sendo a vítima e diz que deveria ter aberto um B.O. (Boletim de Ocorrência) contra as muitas coisas que a diretora na época supostamente falava para o autor, o posto é um desabafo que pode caracterizar traumas e constrangimentos. “Ela disse que nunca arrumaria ninguém por conta do meu cabelo, só viria “marginal”, atrás de mim (palavras dela). Dizia que nunca ia arrumar emprego por conta do meu cabelo, teria sorte se alguma empresa me quisesse, mandava eu abaixar?????? Me expôs na frente da escola toda no auditório por conta do meu cabelo, inúmeros outros casos que ninguém ligava por ser considerado pequeno”, diz a publicação.

Há ainda uma publicação que fala da conivência de outros profissionais da escola, retira a responsabilidade dos professores e ao mesmo tempo diz que “quem defende racista, racista também é! E se todo esse assunto nunca viralizou da forma que deveria é pq (sic) os profissionais de lá de dentro são os primeiros a passar pano”, desabafou o autor.
Em outra publicação o autor diz que lembra da época em que estudo na escola e quando fazia o 1º ano do ensino médio, uma professora disse que todos os alunos que eram considerados “diferentes”, ou seja Gays, Lésbicas ou negros eram sempre pautas das reuniões deles, destaca ainda que não somente a diretora, “mas boa parte da administração daquela escola”, finaliza a publicação.

Por fim a última publicação sugere que não se deve passar o pano para ela (diretora) novamente, diz que o que ela supostamente cometeu é crime e que deve ser punida. “Não é o primeiro processo e não vai ser o último, enquanto ouver (sic) qualquer tipo de preconceito, haverá sempre alguém lutando por direitos”, finalizou.

Cabelo de “Bombril” no primeiro dia de aula – Outra publicação fala sobre o adolescente que supostamente também foi vítima de crime de racismo, segundo a postagem ele foi chamado na coordenação da escola no primeiro dia de aula e a diretora teria dito que ele era tão bonito e não poderia estar com o cabelo de Bombril, ainda segundo a publicação, o adolescente usa cachos, não está com o cabelo grande, nem despenteado, o autor da postagem diz que vai manifestar repúdio e pede compartilhamento do post. A mãe do estudante se manifestou e a primeira de denunciar publicamente o caso de racismo sofrido pelo filho.
Desabafo da mãe do estudante – A dona de casa Janeide Coelho concedeu entrevista com exclusividade ao Sobral Online e durante 20 minutos a mãe desabafou, ficou emocionada e disse que quer justiça contra a discriminação sofrida pelo filho, por parte do núcleo gestor da escola, a mãe está assistida por advogados e já acionou a Comissão de Direitos Humanos do Município de Sobral.
 
A mãe relatou que seu filho, estuda na EEEP Lysia Pimentel e que no dia primeiro dia de aula, disse que ficou muito satisfeita por ele estar indo para as aulas presenciais, porém, desabafou sobre o que o filho sofreu na escola, “quando ele voltou da escola que eu fui perguntar como uma mãe realmente preocupada como tinha sido o primeiro dia de aula, meu filho não falou outra coisa, mas a primeira coisa que ele relatou, foi que ele foi chamado na sala da coordenação, devido a calça ter detalhe né e a calça não poderia ter detalhe nenhum, pois segundo elas a calça estava fora do padrão da escola. Tranquilo, eu recebi um recado da coordenação, dizendo que ele precisava no outro dia ir com outra calça”, disse a mãe.
Em seguida ela fala do que de fato lhe deixou profundamente magoada, “mas o que mais me tocou foi ele me dizer, que no momento que ele estava na coordenação, a diretora teria se referido a ele né, dizendo ‘como pode um rapaz tão bonito com o cabelo desse de Bombril’ e falou do corte do cabelo né e o meu filho, ele saiu da sala, ele não disse nada, mas saiu da sala perplexo e não acreditava que aquilo tinha acontecido, que a diretora teria se referido a ele falado com ele dessa forma”, acrescentou.
A mãe desabafou ao falar da atitude da diretora da escola, “então a diretora que era para acolher que é para mais do que nunca, respeitar e ensinar a respeitar, ela agrediu meu filho é isso que tem mais me chocado, é isso que me dói, porque um adolescente de 16 anos, no seu primeiro dia de aula e ir na recepção com a direção da escola e recebe essa fala, isso é desumano até”, desabafou emocionada.
 
A mãe disse que a atitude da direção da escola não foi de acolhimento, “isso não é acolhimento. E como educadores deveriam acolher e ele aguardou também na sala e viu duas coordenadoras, e esperou que essas coordenadoras o defendesse e dissesse algo, mas eu compreendo realmente que elas não poderiam falar ali naquele momento, contra a diretora, mas não poderiam pelo menos ter falado comigo depois. Sei que isso não passou despercebido pelas coordenadoras, e como se aquela forma que ela falou com um aluno, fosse totalmente normal e o meu filho se sentiu muito mal, como eu estou sentido e toda a família e o que a gente quer é Justiça”, ressaltou.
 
Ela afirma ainda, que o filho nunca sofreu nenhuma discriminação dessa natureza em alguma outra escola ”essa foi a primeira vez, nunca em nenhuma escola, inclusive a última escola que ele estudou a direção também era bastante rígida. Eu não estou aqui querendo denegrir a imagem da escola, inclusive ele foi aprovado para outras duas escolas profissionalizantes e nós escolhemos o Lysia Pimentel acreditando realmente na qualidade do ensino que a escola tem, mas isso não é o caso, não estou querendo denegrir a imagem da escola, a escola é maravilhosa, ótima estrutura, mas o que nós não podemos aceitar é uma conduta dessa de racismo, de denegrir, de diminuir pelo cabelo crespo, é o cabelo dele”, disse.
 
A mãe diz que o tratamento na escola deve ser mais humanizado e ele deve ser acolhido e não há tratamento de acolhimento, de afetividade, o que houve foi uma exposição de reclamação por causa da forma do cabelo do filho, “a forma do cabelo do meu filho é lindo, é um cabelo crespo, então esse cabelo dele não é considerado adequado, por quê? Porque o cabelo é crespo ele não é aceito? Como é aceito só cabelo liso? Então é isso que nós estamos reforçando e falando que é impossível aceitar isso”, desabafou novamente.
 
Testemunha ocular dos fatos – Um estudante de 21 anos que prefere não ser identificado, disse com exclusividade para o Sobral Online que estudou na escola Lysia Pimentel de 2015 a 2018 ele mora em um bairro distante da escola e estudou Mecânica. Segundo ele alunos negros e com cabelos encaracolados sofriam Bullyng na escola, “negros com o cabelo grande sempre foram discriminados, uma vez ela pediu para um aluno cortar o cabelo pois segundo ela era feio, ela disse ainda que ele não iria arranjar nenhum emprego, o aluno se recusou a cortar, ela retirou o aluno da sala e pagou um cabeleireiro perto da escola”, revelou o ex-aluno. Segundo ele o estudante negro fazia o 2º ano de administração, em 2018.
Falou ainda sobre o caso de uma adolescente que tinha o cabelo encaracolado, era negra… Disse ainda que a diretora tinha aversão a gays, falava em reunião de alunos que determinados comportamentos eram condenados, “teve três alunos que fizeram uma apresentação de dança, e depois foram chamados a atenção e a diretora disse que esse tipo de dança não era admitido na escola”, relatou. Ele disse ainda que um aluno foi chamado atenção e que tinha que mudar até o modo de andar, “tinha que mudar a postura dele e que ele deveria mudar até mesmo o modo de andar, cerca de 70% das práticas são feitas pela diretora e o restante era por parte da coordenação da escola”, detalhou.
 
Méritos da escola – O estudante reconhece que a escola possui uma boa proposta pedagógica e que ele aprendeu muito, porém tudo isso tem um custo, “sofremos muita pressão psicológica, imagina como vou me sentir se alguém disser que nunca vou conseguir emprego por causa do meu cabelo”, desabafou.
 
Escola com partido – O aluno diz ainda que a escola tem partido, disse que a diretora apoiou um candidato a deputado que foi responsável pelo projetos das escolas de educação profissional, “ela exigiu que os alunos vestissem a camisa, um aluno disse que não iria vestir a camisa exigida por ela, o aluno publicou o fato nas redes sociais e a diretora ameaçou expulsar ele e decidiu chamar os pais do estudante na escola e houve um acordo e ela exigiu que o aluno publicasse uma retratação sob pena de ser expulso da instituição, o aluno fez sob forte ameaça do pai e da diretora”, finalizou.
 
Direção nega acusações – A diretora da Escola nega as acusações e disse a reportagem do Sobral Online, que a SEDUC (Secretaria de Educação do Estado) irá se manifestar via nota à imprensa. Até o fechamento desta edição a nota não foi publicada.

 

 
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