Por que Julio Cortázar segue conquistando leitores após mais de 40 anos de sua morte
Se agora olhamos para a literatura da América Latina com um senso de união, muito se deve à Julio Cortázar e aos seus colegas escritores do Boom. Entre as décadas de 1960 e 1970, houve uma projeção internacional do que era produzido nestas paragens. O impacto foi tamanho que, mesmo após 42 anos de sua morte, o escritor argentino segue sendo lançado, com frequentes reedições e novas traduções.
Dentre uma das recentes obras sobre o escritor, está o livro “Cortázar por ele mesmo”, com organização e tradução do pesquisador Cassiano Viana. Publicada pela Editora 7 letras, em julho deste ano, a obra possui entrevistas transcritas de programas televisivos das décadas de 70 e 80.
São quatro ao todo, sendo três entrevistas concedidas a programas televisivos da Radiotelevisión Española (RTVE):
Programa “A fondo”, apresentado por Joaquín Soler Serrano;
Programa “Encontro con las letras”, entrevistado por José Luis Jover;
Programa Buenas Noches, debate com a jornalista Mercedes Milá.
A quarta é descrita por Cassiano como uma entrevista a título de bônus afetivo, a partir de uma pequena e última conversa que o escritor concedeu nas ruas de Buenos Aires, na Argentina, alguns meses antes de sua morte.
“Eu pesquiso Cortázar há bem mais de 20 anos. Em 2023, resolvi entrar no mestrado, justamente para ‘academizar’ uma pesquisa que já existia. Eu precisava ter uma visão crítica daquilo que estava lendo”, revelou em entrevista para esta coluna do Diário do Nordeste.
Ao final de seu mestrado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde estudou a correspondência de Julio Cortázar para a Casa de las Américas (1963-1983), Cassiano percebeu que já tinha diversos arquivos de entrevistas transcritas. Surgiu, então, o desejo de tentar publicar.
“São entrevistas públicas que não tinham sido traduzidas, mas que comecei a traduzir ao longo dos anos para utilizar em um artigo ou outro. Naquelas entrevistas, você tinha a voz do Cortázar, e o depoimento dele como uma fonte primária. Você tem um espaço biográfico”.
Cassiano Viana-Escritor e pesquisador
ENTREVISTAS COMO UMA ‘AUTOBIOGRAFIA INVOLUNTÁRIA’
Para Cassiano, as entrevistas compiladas e organizadas no livro surgem como um reservatório externo aos outros escritos do autor. A partir delas, os leitores e o público podem acessar as intimidades e as experiências cotidianas do escritor argentino.
Este material, inclusive, é um convite a descobrir um lado de Cortázar quase sem edição. Para Félix Alberto Lima, responsável pelo prefácio da obra, essa ausência de mediação surge como uma autobiografia involuntária.
“Tem uma fonte primária. Ele está dizendo aquilo. Além disso, são registros audiovisuais. São muito mais próximos de uma realidade não editável”, reforça Cassiano.
As entrevistas mostram um panorâma sobre ele e sua trajetória. Os diálogos traduzidos por Cassiano possuem uma carga potente, abordando a visão de Cortázar acerca da literatura e do mundo.
“Não há aqui uma narrativa ordenada, mas um autorretrato em trânsito, no qual o escritor mapeia (…) a formação autodidata, a decisão de viver em Paris, as tensões políticas da América Latina e a busca permanente de uma identidade que, segundo ele, não poderia ser definitiva”, descreve Félix Alberto.
Após compilar esse material, Cassiano identifica uma arte perdida da conversação. Havia uma generosidade na fala do escritor, mas também do jornalista ou entrevistador. “Ele está respondendo no talo, e sendo entrevistado por jornalista de um quilate altíssimo. Os entrevistadores fizeram uma pesquisa. Conhecem bem a literatura”.
COMPROMISSO COM A AMÉRICA LATINA
Em meio a tudo isso, há ainda um compromisso de Cortázar com a América Latina. Uma responsabilidade de trazer uma narrativa própria que fugisse do exotismo exportável. Para Félix, existia uma busca pela identidade, “gesto de afirmação coletiva, de confiança e de emancipação”.
Cortázar é autor de livros como “Bestiário”, “O livro de Manuel” e “As armas secretas”. Mas, de longe, o seu mais conhecido é o “O Jogo da Amarelinha”, lançado em 1963. Sua estreia foi tão potente que ganhou diversas traduções e aumentou exponencialmente as tiragens de livro no próprio país.
Com o destaque que conquistou, ele não se manteve restrito aos debates sobre literatura, mas usou sua imagem pública para também repercutir temas políticos, como a ditadura militar argentina, que ocorreu entre 1976 e 1983.
“A literatura latino-americana fala para alguma região da gente, para quem se orgulha de ser latino-americano, que gosta de onde a gente nasceu. Por mais que a gente aprecie uma literatura, essa nossa fala por um buraquinho da agente, um cantinho escondido da gente que emociona, que sapateia no nosso coração”.
Assim, ler Cortázar, os outros escritores do boom latino-americano e os nomes expoentes da literatura contemporânea, como Mariana Enríquez, Samanta Schweblin, Mónica Ojeda e Alejandro Zambra, é também um ato político. Uma forma de honrar nosso passado e cultura.
TRECHO DO LIVRO
“Seria uma ingenuidade e uma tolice imaginar que isso que foi chamado de ‘boom’ na América Latina seja uma garantia, um fenômeno duradouro, uma espécie de certificado de maturidade (…) O que me deixa feliz com esse fenômeno chamado de boom, é que há duas coisas: em primeiro lugar, que fomos lidos pela primeira vez por nossos compatriotas (…); em dez anos disso que chamam de boom, milhões de latino-americanos acordaram para esse fato maravilhoso de ter confiança em si mesmos, porque, se eu tenho confiança em um escritor argentino, estou tendo confiança em mim mesmo, tenho confiança como membro de uma sociedade, de uma cultura, de um ritmo histórico. Então, de golpe, temos um continente que nos lê e, em seguida, percebe o que isso significa como um sinal revolucionário, como uma busca por uma identidade”.
Julio Cortázar-Escritor argentino
SERVIÇO
Livro “Cortázar por ele mesmo”
Quanto: R$ 79,80
Onde comprar: Editora Autêntica
Fonte:Diário do Nordeste

