Rede elétrica da Ásia Central sob teste após apagão em meio a expansão digital
Um recente e generalizado apagão, ocorrido em 14 de agosto, abalou quatro nações da Ásia Central, colocando em xeque a robustez da rede elétrica integrada da região e a viabilidade de seus ambiciosos planos de expansão para data centers. O incidente, que deixou vastas áreas do Cazaquistão, Uzbequistão e Tajiquistão sem energia por até algumas horas, iniciou-se com uma interrupção de 600 megawatts no Quirguistão e se propagou rapidamente, gerando um alerta sobre a capacidade do sistema em conter grandes perturbações.
A Ásia Central tem investido significativamente em conectividade energética e na construção de infraestruturas digitais de alto consumo. No entanto, o apagão levanta dúvidas cruciais sobre a capacidade da região de gerenciar a crescente demanda por energia, especialmente em um contexto de triplicação da capacidade de transmissão transfronteiriça e aumento da necessidade de refrigeração para as novas instalações.
O Efeito Cascata do Apagão de Agosto
A interrupção inicial na geração de energia, que se deu em dois geradores da usina hidrelétrica de Toktogul, no Quirguistão, em 14 de agosto, desencadeou uma série de eventos que culminaram em um colapso generalizado. Em questão de minutos, cortes de energia atingiram o sistema interligado, afetando milhões de pessoas e empresas. Embora o Ministério de Energia do Quirguistão tenha rejeitado a responsabilidade pela propagação do apagão, afirmando que seu sistema havia retornado à normalidade antes do colapso em Almaty, a operadora cazaque Kegoc atribuiu a falha a um desequilíbrio causado pela perda de carga quirguiz.
Especialistas em energia explicam que, em situações de queda brusca na geração, a frequência e os fluxos de energia se alteram rapidamente. Nesses momentos, mecanismos de proteção automática e reservas de energia deveriam ser acionados para isolar a perturbação e evitar um efeito cascata. A falha desses sistemas de contenção é o ponto central da investigação sobre o que realmente ocorreu.
A Aposta da Ásia Central em Data Centers e a Demanda por Energia
A região da Ásia Central está se posicionando como um hub emergente para a tecnologia digital, com planos ambiciosos de construir data centers que demandarão um volume colossal de energia. Projetos de computação que, no futuro, deverão consumir 1,5 gigawatt de energia já estão em andamento. Entre eles, destaca-se a construção do primeiro data center da saudita DataVolt em Tashkent, Uzbequistão, com previsão de operação até o final do ano.
Além disso, a primeira fase do “Data Center Valley” do Cazaquistão, com apoio da Nvidia e da Firebird, pode ser concluída até junho do próximo ano. Essa expansão digital, embora promissora para o desenvolvimento econômico, adiciona uma camada de complexidade à gestão da rede elétrica, que já enfrenta desafios de estabilidade e capacidade.
Desafios na Resiliência da Rede Elétrica Regional
A rede elétrica interligada da Ásia Central foi concebida para otimizar o abastecimento de energia, aproveitando a complementaridade entre a geração hidrelétrica a montante (Quirguistão e Tajiquistão) e as termelétricas a jusante (Cazaquistão e Uzbequistão). No entanto, o apagão recente revelou vulnerabilidades significativas. A comparação com o sistema europeu, que conseguiu conter um efeito cascata semelhante na Espanha e em Portugal em abril de 2025, ressalta a necessidade de aprimoramento na Ásia Central.
Sobir Kurbanov, pesquisador da Nightingale Intelligence, aponta que a questão central é a suficiência de monitoramento, capacidade de reserva, proteção automática e procedimentos de emergência acordados para isolar grandes perturbações. O Uzbequistão, por sua vez, afirma ter mecanismos de proteção, como sistemas de armazenamento de energia, que foram úteis durante o incidente. Cazaquistão e Quirguistão abriram investigações separadas para determinar as causas e responsabilidades.
Investimentos e as Perspectivas para o Inverno
O Banco Mundial está financiando a implementação de um mercado regional de energia com duração de 10 anos, visando reforçar a segurança energética e a cooperação. O projeto busca atingir 16 GW de capacidade de transmissão, mas sua primeira fase de financiamento beneficia apenas Quirguistão, Tajiquistão e Uzbequistão, excluindo o Cazaquistão. Essa lacuna, segundo Kurbanov, pode comprometer a resiliência regional, pois “não pode ser alcançada, em última análise, modernizando-se três sistemas nacionais enquanto se deixam sem solução gargalos críticos em outras áreas”. Para mais informações sobre as iniciativas do Banco Mundial na área de energia, visite o site oficial.
O próximo inverno será um novo teste para o sistema. No ano passado, o Cazaquistão consumiu 1,5 bilhão de quilowatts-hora a mais do que gerou, e suas opções de balanceamento são limitadas. A dependência de usinas a carvão, que respondem por 70% da geração, e a importação de gás, somadas ao declínio da geração hidrelétrica, criam um cenário desafiador. O Uzbequistão também enfrenta pressão, com cerca de 10% da demanda não atendida, apesar do aumento da produção.
O Dilema dos Data Centers e a Segurança Energética
A crescente demanda dos data centers adiciona uma nova camada de complexidade à equação energética da Ásia Central. Enquanto 12 MW iniciais representam um volume modesto em escala nacional, a meta de 500 MW levanta questões sobre a capacidade do sistema de absorver essa demanda ininterrupta em momentos de oferta restrita. Ekibastuz, no Cazaquistão, garantiu uma subestação de 215 MW para seu data center, e a TAS-1 no Uzbequistão planeja obter energia da rede.
Umud Shokri, estrategista de energia, destaca que, nessa escala, seriam necessários investimentos em geração dedicada, armazenamento e infraestrutura de rede para evitar a competição com o consumo residencial nos horários de pico. Sugestões incluem a exigência de que grandes instalações financiem uma parcela significativa de suas necessidades adicionais de energia, uma abordagem similar à proposta pela PJM, operadora de rede elétrica dos EUA. Por outro lado, Aruzhan Meirkhanova, analista sênior, argumenta que a resiliência é incorporada no projeto dos data centers, com sistemas de backup e normas de certificação, e que alguns podem até operar totalmente fora da rede, dependendo do investimento e apetite ao risco dos desenvolvedores.
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