Sensação de estar no controle muda a forma como o cérebro aprende, revela estudo

Você já teve a sensação de que, não importa o que faça, a vida parece um jogo de azar? Um novo estudo descobriu como o cérebro humano calcula se estamos no controle do nosso destino e como acreditar nas próprias decisões pode mudar, fisicamente, como a mente aprende e se motiva.

Publicada na revista Neuron, uma das revistas de neurociência mais importantes do mundo, a pesquisa da Universidade de Oxford, na Inglaterra, encontrou duas estruturas no cérebro responsáveis por como o cérebro determina quem está, de fato, “no controle” de uma situação.

O sistema funciona em duas etapas: primeiro, um circuito gera a percepção de quanto controle a pessoa tem, e, depois o segundo pega essa “sensação de controle” e usa isso para decidir quanta atenção o cérebro deve dedicar ao que acabou de acontecer.

O que isso quer dizer: o cérebro não trata todo resultado igualmente. Na verdade, ele decide, antes de tudo, se vale a pena mesmo como forma de aprendizado.

Como pesquisa foi feita

Os cientistas utilizaram 22 voluntários, todos adultos saudáveis, os colocando numa máquina de ressonância magnética de 7 Tesla enquanto faziam determinada tarefa.

O poder extra do aparelho de 7 Tesla permitiu que os pesquisadores observassem a atividade em pequenas estruturas cerebrais profundas, especialmente difíceis de estudar com exames de imagem convencionais.

Os voluntários, então, jogaram um “minigame” onde adivinhavam a cor predominante em um mar de pontinhos na tela e, em seguida, recebiam um feedback que tanto poderia seria de dado de forma honesta ou em forma de um “lançamento de moeda” disfarçado.

Como não sabiam qual era qual, eles tinham que decidir por si se suas vitórias ou derrotas eram realmente fruto de suas próprias ações.

Confiança, culpa e controle: tudo junto e misturado

Com o passar das rodadas, os participantes começaram a melhorar na detecção de feedbacks aleatórios e verdadeiros, mas, ao mesmo tempo, um hábito comum entrou em jogo: as pessoas atribuíam o mérito de suas vitórias e culpavam o azar pelas derrotas, especialmente quando estavam confiantes antes da partida.

Enquanto isso, exames cerebrais mostraram o córtex pré-frontal dorso medial ativado simultaneamente para as três funções: monitorar a confiança, decidir se era sorte ou mérito e estimar o grau de controle em jogo.

Quem mostrava mais ativação dessa área cerebral tinha mais chance de descobrir quem era realmente o responsável por um resultado.

Só que outras estruturas também apareceram durante a pesquisa. Uma foi o núcleo da rafe dorsal, que monitorou a mudança no senso de controle de cada um, “conversando” mais ativamente com o córtex pré-frontal dorso medial quando detectava alguma mudança.

Em seguida, o segundo circuito — associado a regiões do mesencéfalo — decidia quanto “peso” dar a cada resultado após a atribuição do crédito.

Quando as pessoas acreditavam que uma vitória foi por mérito próprio, esse circuito de recompensa se ativou da mesma forma que normalmente acontece durante o aprendizado.

Por outro lado, quando acreditavam que o resultado foi obra do acaso, esse sinal se invertia. O cérebro, ao que parece, silencia silenciosamente as lições que não considera reais.

Pesquisadores ‘desligaram parte do cérebro’ de voluntários

Então, com a ajuda de um equipamento magnético externo (TMS), os cientistas “desligaram” temporariamente uma área do cérebro de outros 20 voluntários.

O resultado? Os participantes tiveram dificuldade para determinar se um resultado era de sua própria autoria ou obra do acaso.

Ao mesmo tempo, o desempenho dos participantes no jogo das bolinhas não mudou: eles eram tão bons quanto com essa parte do cérebro “ligada”, o que sugere que o córtex pré-frontal dorso medial não está executando a tarefa em si, mas sim decidindo o que a tarefa significa.

Circuitos poderiam explicar ansiedade e depressão

Para os pesquisadores, esses circuitos “secretos” podem ajudar a explicar alguns casos de ansiedade e depressão, principalmente em cenários onde as pessoas avaliam mal o controle que realmente têm sobre suas vidas.

No entanto, por ser realizado apenas com adultos saudáveis — e uma amostra pequena deles — não é possível, segundo os autores, generalizar os resultados para todas as idades ou perfis psicológicos.

O que fica, no final, é que, no nosso cérebro, enquanto um circuito responde à pergunta “Isso teve alguma coisa a ver comigo?”, um segundo decide o quanto essa resposta realmente importa.

Juntos, a dupla torna uma determinada a experiência bruta em algo que uma pessoa pode aprender ou simplesmente ignorar.

 

Fonte: Ceará Agora