Ocupação territorial e negacionismo: as raízes do desastre climático no Rio Grande do Sul em 2024
As enchentes que assolaram o Rio Grande do Sul em 2024, marcando o maior evento hidrometeorológico já registrado no Brasil, não são resultado de uma única causa. Um estudo aprofundado do WRI Brasil revela que o desastre foi agravado por uma complexa teia de 11 fatores interligados, com destaque para o modelo de ocupação territorial. A análise aponta para a urgência de uma abordagem multifacetada na reconstrução e prevenção de futuras catástrofes.
Este levantamento, intitulado “Entendendo a construção do risco: causas raiz do desastre climático de 2024 no Rio Grande do Sul”, mergulha nos elementos que, ao longo do tempo, solidificaram vulnerabilidades e intensificaram os riscos associados a eventos climáticos extremos. A pesquisa, desenvolvida em parceria com universidades gaúchas, organiza esses fatores em quatro categorias essenciais: desenvolvimento urbano e rural, governança, condições socioeconômicas e aspectos ambientais.
A Ocupação Territorial como Fator Crítico
Entre as principais causas que contribuíram para a dimensão da tragédia, o modelo de ocupação territorial emerge como um dos mais impactantes. Historicamente, o crescimento das cidades tem levado à ocupação de áreas de risco, um fenômeno que afeta desproporcionalmente as populações mais vulneráveis. Essa expansão desordenada, muitas vezes sem o devido planejamento ou fiscalização, coloca comunidades inteiras em situações de perigo iminente.
Henrique Evers, gerente de Desenvolvimento Urbano do WRI Brasil, ressalta a gravidade dessa questão. “O processo histórico de ocupação territorial levou as cidades a ocuparem áreas de risco, em especial as populações mais vulneráveis. Esse fator não é isolado, mas é uma das razões que contribuíram para a proporção do desastre”, afirma Evers, sublinhando a necessidade de repensar a forma como as áreas urbanas são desenvolvidas e geridas.
Múltiplas Causas e Pressões Dinâmicas
O estudo do WRI Brasil não se limita à ocupação territorial. Ele identifica outras 10 causas que se somam para agravar o cenário, incluindo o negacionismo climático, as desigualdades socioeconômicas, as condições geomorfológicas e a falta de priorização de políticas públicas. Esses elementos criam um ambiente propício para que eventos naturais se transformem em desastres de grande escala, expondo as fragilidades de um sistema que não se preparou adequadamente.
Além disso, a pesquisa aponta para a existência de 20 pressões dinâmicas que intensificam o risco. Entre elas estão a expansão urbana desordenada, a escassez de recursos, a intensificação das mudanças climáticas e a baixa memória social sobre riscos ambientais e desastres. A combinação desses fatores cria um ciclo vicioso onde a vulnerabilidade é constantemente reforçada, tornando as comunidades ainda mais suscetíveis a impactos devastadores.
Desigualdade e Governança: Desafios para a Resiliência
A desigualdade socioeconômica e a concentração de renda são apontadas como fatores críticos que ampliam a vulnerabilidade das populações. Em cenários de crise, essas disparidades reduzem drasticamente a capacidade de resposta e recuperação dos grupos mais afetados, perpetuando um ciclo de sofrimento e perdas. A falta de priorização política e a governança deficiente também contribuem para a ineficácia das ações preventivas e de mitigação.
Para construir cidades mais resilientes a eventos climáticos extremos, que tendem a se tornar mais frequentes, o estudo enfatiza que investimentos urgentes em infraestrutura não são suficientes. É crucial fortalecer a governança regional, integrar o planejamento urbano e ambiental, priorizar a justiça climática e os grupos mais vulneráveis, e consolidar uma cultura de prevenção. A desinformação, o negacionismo e a falta de memória social sobre desastres também contribuem para um ciclo que subestima os riscos, dificultando a implementação de medidas eficazes.
O Legado de 2024: Reconstrução e Prevenção
Em 2024, o Rio Grande do Sul enfrentou chuvas intensas e prolongadas que provocaram inundações e deslizamentos de terra em diversas regiões. Dos 497 municípios gaúchos, 418 decretaram situação de emergência ou estado de calamidade pública, afetando cerca de 2,4 milhões de pessoas. Em alguns locais, o volume de chuva ultrapassou 500 milímetros nos primeiros 13 dias de maio, evidenciando a magnitude sem precedentes do evento.
A reconstrução do estado, portanto, exige uma visão que vá além da recuperação física. É um momento de reflexão e de implementação de políticas públicas robustas que considerem as causas raiz do desastre. O WRI Brasil, uma organização independente de pesquisa, utiliza dados para apoiar a formulação de políticas públicas e promover mudanças estruturais, buscando um futuro mais seguro e sustentável para o país. A compreensão desses fatores é essencial para reforçar vulnerabilidades e ampliar os riscos associados ao evento extremo.
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