Washington voltou a olhar para a América Latina. Brasília também deveria

Para quem acompanha a agenda internacional e, sobretudo, as relações entre Brasil e Estados Unidos, dois movimentos recentes de Washington merecem atenção.

O primeiro foi a chegada, em agosto, de Juan Pablo Segura ao comando do Bureau de Assuntos do Hemisfério Ocidental do Departamento de Estado. Empresário, fundador de uma startup na área de saúde e ex-secretário de Comércio da Virgínia, Segura combina experiência no setor privado, passagem pelo governo e forte alinhamento político com a administração Trump.

O segundo ocorreu na semana passada. Marco Rubio desembarcou na América do Sul para uma agenda entre os dias 8 e 10 de setembro, passando por Colômbia, Equador e Peru.

O que esses dois movimentos têm em comum? E o que o Brasil tem a ver com isso?

A resposta passa por algo que parecia pertencer aos livros de história, mas voltou explicitamente ao vocabulário da Casa Branca: a Doutrina Monroe.

Em dezembro do ano passado, Donald Trump anunciou aquilo que sua administração passou a chamar de “Trump Corollary” à Doutrina Monroe.

Em outras palavras, uma atualização para o século XXI, da ideia de que o Hemisfério Ocidental constitui uma área prioritária para os interesses estratégicos dos Estados Unidos.

A diferença é que, agora, o principal adversário estratégico dos EUA na região é a China.

Segurança, narcotráfico, imigração, comércio, energia, minerais críticos, infraestrutura e alinhamento político passaram a fazer parte de uma mesma equação.

Washington quer aumentar sua presença no continente e, ao mesmo tempo, limitar o espaço ocupado pela China nas últimas duas décadas.

Há certa ironia nisso. Durante boa parte dos últimos 20 anos, os Estados Unidos reduziram relativamente sua atenção política na América Latina enquanto concentravam esforços no Oriente Médio, na Ásia e, posteriormente, novamente
na Europa.

A China fez o movimento contrário. Ampliou comércio, investimentos, financiamento e presença em setores estratégicos da região.

No comércio, adimensão dessa mudança é evidente.

Em 2000, o país respondia por apenas 1% das exportações da América Latina e Caribe e por 2,3% das importações.

Em 2023, essas parcelas já haviam alcançado, respectivamente, 14% e 20%, segundo a CEPAL. A isso se soma a expansão do capital chinês em diferentes cadeias produtivas latino-americanas.

Trump quer mudar essa lógica e a América Latina voltou ao centro da estratégia americana.

A viagem de Rubio deixa isso evidente. Na Colômbia, por exemplo, Washington assinou acordos de cooperação em minerais críticos e energia nuclear civil, bem como avançou nas conversas sobre segurança e combate ao narcotráfico.

No Equador, ele anunciou que buscará US$ 45 milhões adicionais em recursos de segurança para apoiar o combate ao narcotráfico, além de US$ 10 milhões destinados ao enfrentamento da mineração ilegal, recrutamento por organizações criminosas e financiamento ilícito.

Peru e Colômbia também passaram a integrar o Escudo das Américas, iniciativa americana de cooperação
regional contra o crime organizado.

Como Trump havia anunciado no ano passado, segurança, comércio e cadeias produtivas estratégicas estão sendo tratadas conjuntamente.

É nesse contexto que a chegada de Juan Pablo Segura também merece atenção. Segura conhece o setor privado, e chega ao Departamento de Estado justamente quando Washington tenta reconstruir sua presença econômica epolítica no continente. É uma escolha coerente com o viés para a região que mistura segurança nacional, comércio, investimentos e geopolítica.

E onde entra o Brasil? Para responder a essa pergunta, dois elementos são fundamentais: geopolítica e geoeconomia.

Independentemente das fricções políticas recentes entre Brasília e Washington, é impossível formular uma estratégia americana consistente para a América Latina ignorando o Brasil.

O PIB brasileiro foi de aproximadamente US$ 2,28 trilhões em 2025, segundo dados do Banco Mundial. É, com larga distância, a maior economia da América Latina.

Os Estados Unidos, por sua vez, continuam sendo o principal investidor estrangeiro no país. Considerando o critério de controlador final utilizado pelo Banco Central, o estoque de investimento direto americano em participação no
capital chegou a US$ 232,8 bilhões em 2024.

O comércio ajuda a dimensionar essa relação. Em 2025, Brasil e Estados Unidos movimentaram US$ 94,2 bilhões somente em bens.

Quando incluídos os serviços, a relação comercial chegou a aproximadamente US$ 135,7 bilhões. Para se ter uma ideia, somados, os fluxos de comércio de bens dos Estados Unidos com Colômbia, Peru e Equador alcançaram cerca de US$ 77,7 bilhões em 2025.

Longe de diminuir a importância dos três países visitados, a comparação deixa claro o peso relativo do Brasil nessa equação. O país tem escala econômica, mercado consumidor e recursos naturais estratégicos para os Estados Unidos.
Alinhamento político importa. Sempre importou. É balela dizer o contrário.

Mas interesses econômicos também produzem alinhamentos, talvez ainda mais
duradouros.

E existem várias áreas nas quais Brasil e Estados Unidos possuem interesses convergentes ou, pelo menos, negociáveis: energia, alimentos, minerais críticos, inteligência artificial, infraestrutura, tecnologia e reorganização das cadeias globais de valor.

O problema é que esse espaço não ficará aberto indefinidamente. Há novos players no jogo, novas alianças sendo construídas e uma disputa cada vez mais explícita pela influência econômica e política na América Latina.

O Brasil precisa definir uma estratégia integrada, pragmática e objetiva para lidar com os Estados Unidos. Uma estratégia que não dependa apenas de afinidades entre presidentes ou governos e que sobreviva às mudanças no Executivo e no Legislativo.

Washington voltou a olhar para a América Latina, seja por interesses próprios, seja para fazer frente à crescente influência da China na região. Brasília também deveria olhar com atenção para esse movimento e entender como se posicionar
estratégica e pragmaticamente nesse novo tabuleiro.

Fonte:CNN Brasil