A alta da bolsa e a queda do dólar e dos juros futuros mostram que o mercado incorporou aos preços uma mudança na percepção de risco, principalmente fiscal, mesmo sem um plano claro de como executar esse ajuste.
O segundo turno deve ser o momento de exigir um compromisso com propostas concretas para esse ajuste fiscal, além de fortalecer as instituições, ampliar a autonomia econômica e a competitividade econômica e consolidar o protagonismo internacional do Brasil nas principais cadeias produtivas globais.
O primeiro turno terminou, mas o próximo ciclo de desenvolvimento continua em aberto. No primeiro pregão após a votação, em 5 de outubro, o Ibovespa subiu 7,70%, para o recorde de 206.911,89 pontos; o dólar recuou 4,12%, para R$ 5,0022; e o juro futuro com vencimento em janeiro de 2035 caiu cerca de 133 pontos-base, ou 1,33 ponto percentual.
Em Nova York, o EWZ, ETF de ações brasileiras, avançou 12,54%, refletindo ações e câmbio.
Esse movimento reflete uma revisão das probabilidades atribuídas pelos investidores aos diferentes cenários políticos e econômicos e da percepção de risco associada a cada um deles. Mostra que uma mudança de percepção pode ter efeitos reais sobre os preços dos ativos, mesmo antes da apresentação de um plano claro para executar o ajuste fiscal.
Para quem empreende, investe ou trabalha, a questão agora é sair do jogo de expectativas e exigir políticas e compromissos que garantam condições duradouras para produzir, inovar e gerar emprego e renda.
O segundo turno oferece uma oportunidade para pautar e aprofundar essa discussão. Além de escolher quem governará, podemos exigir clareza sobre o que será feito, como será feito e quais resultados poderão ser acompanhados pela sociedade.
Pilares inegociáveis para um Brasil mais competitivo
Se o primeiro passo é o ajuste fiscal, como sinaliza a reação do mercado, as propostas devem explicar quais despesas serão reduzidas, como combinar redução de impostos e equilíbrio das contas e como preservar investimentos em educação, segurança pública, saúde, infraestrutura, ciência, resiliência climática e segurança alimentar e energética.
Também precisam mostrar como combinar recursos públicos e privados sem pressionar a dívida pública e o custo de capital, selecionar projetos e avaliar seu retorno em inovação, produtividade e benefícios para a sociedade.
Essa agenda depende de instituições confiáveis, independentes e previsíveis, que garantam regras, controles e mecanismos de correção. Respeito às relações institucionais, independência dos Poderes, transparência, liberdade de expressão e segurança jurídica sustentam a cidadania e o investimento. Quem compromete recursos precisa confiar que contratos serão respeitados e conflitos terão solução previsível.
A autonomia econômica se traduz na capacidade de decidir, negociar e agregar valor às nossas cadeias produtivas. Depende de conhecimento, tecnologia, infraestrutura e alternativas de financiamento, fornecimento e comercialização. Diversificar relações e desenvolver capacidades próprias amplia a liberdade de escolha e o poder de negociação do Brasil.
A competitividade transforma esses fundamentos em prosperidade. Produzir melhor, usar recursos com eficiência e incorporar inovação exige metas concretas de produtividade, aprendizagem, ensino técnico, infraestrutura e desenvolvimento de cadeias de maior valor agregado.
Uma agenda de produtividade, complexidade econômica e governabilidade
A agenda de produtividade merece atenção especial. A taxa de desemprego ficou em 5,3% no trimestre encerrado em agosto, o menor nível para esse período na série do IBGE. Embora ainda existam informalidade e subutilização da força de trabalho, o desemprego historicamente baixo reforça a importância da qualificação e da produtividade para sustentar o crescimento do PIB.
Isso exige investimento robusto na educação básica, técnica e profissional e na requalificação para acompanhar novas tecnologias. As propostas precisam conectar escolas, instituições de pesquisa, empresas e capital às oportunidades de inovação e empregos qualificados, com melhores remunerações. Os resultados devem ser acompanhados por aprendizagem, inserção profissional e produtividade.
Energia, alimentos, minerais e soluções da natureza devem gerar tecnologias, processamento industrial e serviços de maior valor agregado. Preço e confiabilidade da energia, transmissão, armazenamento, logística e fertilizantes influenciam custos e continuidade da produção. Conservação de bacias, recuperação de solos e restauração de ecossistemas protegem produção e infraestrutura, fortalecendo a segurança energética, alimentar e climática.
Essas capacidades devem orientar a inserção do Brasil nas principais cadeias produtivas globais, com relações construtivas com China, Estados Unidos, Europa e outros parceiros. O protagonismo internacional também se constrói pela cooperação, pela participação em soluções globais, pela tecnologia e pela relevância das nossas empresas, preservando a autonomia econômica.
As propostas precisam considerar a nova composição do Legislativo eleito, explicar quais medidas dependem de aprovação e como conciliarão prioridades de investimento e decisões orçamentárias. Governabilidade, transparência e capacidade de execução fazem parte dessa avaliação.
Ao ler uma proposta, vale perguntar: ela fortalece as instituições? Amplia nossa autonomia econômica e nosso protagonismo econômico global? Cria condições para aumentar produtividade e renda?
As três perguntas a serem respondidas e um pacto pelo Brasil
As três perguntas que devem orientar este segundo turno são claras.
Como financiar e avaliar as políticas de investimento sem aumentar a pressão sobre a dívida pública e o custo de capital?
Como executar o ajuste fiscal, combinar redução de impostos e equilíbrio das contas e preservar os investimentos necessários ao desenvolvimento?
Quais metas concretas serão assumidas para produtividade, aprendizagem, ensino técnico, infraestrutura e agregação de valor nas cadeias produtivas globais, ampliando o protagonismo internacional do Brasil com autonomia econômica?
Essas perguntas podem dar origem a um pacto pelo Brasil, que deve ser assumido publicamente pelas candidaturas (que estiverem de fato comprometidas com um plano de país). Um compromisso com instituições democráticas, autonomia econômica, sustentabilidade fiscal, Estado de bem-estar e competitividade, acompanhado com transparência ao longo do próximo mandato.
O segundo turno ainda pode ser o momento de pactuar o que o Brasil precisa entregar à sua população: mais competitividade, produtividade, melhores oportunidades e capacidade de transformar seus ativos em prosperidade duradoura.
O momento é agora, pois o jogo ainda não acabou.
Fonte:Diário do Nordeste

